Como o sequestro de Natascha Kampusch ajuda a compreender o massacre no Rio!

Boa tarde!

Hoje não teremos figuras para ilustrar o texto, pois o tema é chocante demais para usar qualquer tipo de ilustração. Não quero colocar fotos de nada ligado ao horror vivido pelas crianças no dia de ontem em Realengo, no Rio de Janeiro.

Creio não precisar falar sobre o que aconteceu, pois todos os noticiarios exploraram exaustivamente o assunto. O que quero compartilhar com vocês é algo que percebo há tempos.

Recentemente adquiri o livro 3096 dias, de Natascha Kampusch, a jovem que passou 8 anos nas mãos de Wolfgang Priklopil, na Áustria, conseguindo escapar após anos de tortura fisica e psicologica. Foi um dos livros mais marcantes em minha vida, pois trouxe á tona reflexões que considero importantes para nossa sociedade mas que são negligenciadas.

Em sua obra, Natascha narra os piores momentos, suas angustias, medos, pressões vividas, o comportamento do agressor e como a sociedade reagiu á sua fuga e á negação de ser vítima eterna do que ocorreu á ela. Quero chamar a atenção para essa ultima parte, pois é exatamente o ponto que nos ajuda a compreender o que houve no Rio.

Natascha fugiu de seu algoz após vencer o medo maior que ela adquiriu do mundo fora do cativeiro. Não via outro ser humano há quase uma década, sofreu tentativas de lavagem cerebral constantes e teve que ter muita personalidade para aprender a lidar com Wolfgang. O sequestrador é descrito por ela como um homem de atitudes normais, pleno de suas ações, mas que tinha uma visão distorcida do mundo ao seu redor. Ele simplesmente não se encaixava na sociedade em que vivia. Não gostava da vida que levava, porém lutava para manter as aparencias. Então, aconteceu o que costuma ser episodio frequente na vida daqueles que “não se encaixam”: ele foi ignorado pela sociedade. Os vizinhos não falavam com ele, ele não tinha amigos (alias, ele tinha UM amigo, que jurou que ele era uma pessoa comum, o que prova que ele não conhecia Wolfgang, pois nem desconfiou do que o amigo fazia em casa), convivia com a mãe (que também mal o conhecia), sem estabelecer nenhum tipo de relação com outras pessoas. Até achar Natascha e fazer dela seu bichinho de estimação, obrigando-a a mudar de nome, raspar os cabelos e negar a vida anterior, para que ela fosse exatamente como ele queria. No entanto, ele se deparou com o pior de seus desafios: seu ‘bichinho’ tinha personalidade e toda vez que ela se negava a obedecê-lo, o instinto tomava conta dele e os espancamentos aconteciam com frequencia maior e sem previsibilidade. Natascha nunca sabia o que o descontentava e então sua pressão era triplicada dia após dia, na iminencia de uma nova onda de furia que culminasse em sua morte. Quando Natascha fugiu, ela sabia que Wolfgang se mataria, pois conhecia-o profundamente para saber que ele não iria suportar a pressão da sociedade pelo seu crime. Ele se jogou em uma linha de trem poucas horas depois da fuga.

E então o que temos de ‘igual’ nas historias? Os dois algozes eram consideradas pessoas comuns por aqueles que os ignoravam. Suas familias os ignoravam, seus vizinhos, amigos, a sociedade. Caso algum comportamento seja considerado “fora dos padrões normais”, a sociedade costuma tomar a pior das atitudes: ignorar. E então esses indviduos não procuram ajuda, se revoltam com o mundo ao redor, revelando sua raiva e ódio nos atos mais impensados. Neste contexto encontram-se os desejos de vingança contra a sociedade, necessidade de atenção e demonstração de poder. A vingança é a escolha de uma ato hediondo, que pode ser público ou secreto, mas que são planejados cuidadosamente para surtir o efeito desejado. A necessidade de atenção é vista em atos públicos de grande impacto, como esses em escolas ou locais públicos, onde o criminoso quer deixar á vista de todos o que ele é capaz de fazer. A demonstração de poder está intimamente ligada ao tamanho da destruição que podem causar sobre outros seres humanos.

Se analisarmos bem, tudo foi somente um pedido interior de “socorro, olhem para mim!”

Não, não estou justificando os atos terriveis. Mas quero trazer á tona a reflexão sobre nosso modo de lidar com as diferenças. De negar nossa culpa quando ignoramos o próximo por não desejarmos nos afetar com os problemas dele.

Uma frase interessante é quando Natascha fala em seu livro que nossa sociedade divide-nos em brancos e pretos (bons e maus). Necessitamos dessa divisão para que, quando um circo dos horrores apresenta seu espetáculo de sangue e morte, possamos apontar para os monstros e dizer: Eu não fiz parte disso! E então, poder seguir a vida como uma pessoa do bem. No entanto, será que não fazemos mesmo parte disso? Não digo somente em relação aos psicopatas, mas á criminalidade em geral, quando fechamos nossos vidros dos carros quando passamos por um mendigo, pela simples incapacidade de lidar com a verdade.

Atos hediondos como os que houveram no Rio, na Austria, nos Estados Unidos, e em outros países, sempre tem algum motivo, mas são poucos os algozes que aceitam enfrentar o mundo e se justificar. Atos de violência acontecem todos os dias debaixo dos nossos olhos, quando um marido espanca a mulher e colocamos o som alto para não ouvir. Quando dividimos o mundo em branco e preto, se nós próprios somos tons de cinza (parafraseando Natascha).

Acredito que a alma humana anda clamando por mais atitudes de humanidade. Estamos pobres em generosidade, amabilidade, convivencia, educação, nos isolando em um mundo digital paralelo, em detrimento do contato físico.

Muito mais do que a dor da perda, a raiva do algoz, devemos considerar nossas próprias atitudes em relação ao próximo e a nossa sociedade como um todo, visando nossa parcela de culpa nas neglicencias, sejam elas sociais, politicas ou quaisquer outras.

Fica aqui meu recado e meu luto por essas crianças.

Bom fim de semana a todos.

P.S.: Como NÃO SOU PSICOLOGA, embora me interesse profundamente por psiquiatria e sociologia, indico o blog GAROTAS MODERNAS (www.garotasmodernas.com) que tem uma postagem interessante sobre psicopatia, escrita por uma psicologa pós graduada de verdade.

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